quinta-feira, 14 de abril de 2016

madrugando

Adormecer.

É na dureza da tábua 
que se adentra a manhã,
deslizando-se sem torpor,
sem fricção.
É a madrugada
que roça as pálpebras,
o som do pó nas tábuas,
a noite esquecendo-se
pelas frinchas.
As folhas das árvores,
os ramos na ginástica da brisa,
o sorriso desdentado de um velho tronco.

A madrugada sopra,
de mansinho,
os restos da noite,
a poesia do sonho 
legitimado.














Varre, também,
a loucura dos olhos teimando-se 
abertos, 
a obsessão do pensamento 
ladeado na demência
das horas lentas,
fincadas no infinito.

É na madrugada
que se assina o pacto
com a luz,
mesmo na dureza
do seu refulgir metálico.

("Sê a tua própria dona.
   Se te inquirirem,
   sê uma só voz.
   Que nunca tenham uma ponta,
   um só átomo contra a tua conduta."
   Fala de Filemon a sua amada Baucis)


sexta-feira, 1 de abril de 2016

sebes



Os arbustos lançavam chispas,
sebes vivas.

Era um caminho poeirento,

cálido.
Sempre aqueles quase-dedos
velozes,
na busca feroz do seu corpo.
Mas seguia,
sempre.
Havia tempo
que o sol já não era companhia,
apenas tortura,
que a brisa
era apenas um vento quente,
amargo,
seco.
Doía-lhe aquele trilho
que lhe ia macerando,
sem dó,
toda a vida
até lá longe,
ao refúgio
(do amanhã)