sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Cidade


Não esqueço
as nossas tardes em Nova Iorque,
cidade a que nunca fui, aliás.
Sentados num banco de jardim

em Central Park,

um lago igual aos de Lisboa,

gozávamos as palavras

que se entrelaçavam

num esgar quase cosmopolita.

O tráfego respirava
em centelhas, em remorsos, talvez;
o respirar das pessoas
criava a cidade.
Não nos importávamos:
era num banco de jardim
em Central Park
que nos sentávamos,
nas nossas tardes em Nova Iorque,
cidade a que nunca fui, aliás.


(publicado no blogue
de Margarida Fonseca Santos)

(fonte da imagem: n/a)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

consumado

Baixaste os ombros,
não, não os encolheste, 
num desprezo banal, ateu.
Apontaste os pés para a terra
para a Terra,
na sacra dúvida.
Labutaste nessa dúvida,
com a certeza
que um Deus ostenta
numa vitória despida.
Teus músculos ainda sustiveram
os teus ossos,
na integridade simétrica da encenação.
Tua cabeça pendeu,
finalmente,
na interrogação da terra, 
da Terra.
As tuas forças iam fluindo,
escapulindo-se como névoa na noite.

Foste erguendo a cabeça
Homem das dores:
está consumado.

(imagem: Cristo de Suan Juan de la Cruz, Salvador Dalí)