terça-feira, 28 de setembro de 2010

(des)crever

Remiro-me ao espelho do que escrevo:
cada palavra, cada respiração, cada suspiro,
eu trato com tesoura de poda, cinzel delicado;
busco o signo, a semente, o sentido,
no sortilégio de uma ténue inquirição.

Sou o meu destino,
todos os alfabetos se me subjugam,
vagos, quase frugais;
releio-me na cobiça da excelência;
espero-te no descarregar de cada página...
(fonte da imagem:
http://www.techfemina.com)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

...


Enlacei as fadigas
em braçadas de tulipas;
o meu perfume sorriu ao vento,
aos feixes dos raiares d'aurora....

(fonte da imagem:
http://commons.wikimedia.org)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

névoa

Os ténues vestígios,
as ternas aves que te semeiam,
os rastos,
espumas de declives
que ainda reténs,
levam-te à circular demência;
mas essa - nebulosa, bem sabes - aspira-te o colo,
e as ervas, os galhos, os troncos,
já nem espalham horizontes;
sobrar-te-á, talvez,
a prisão,
uma janela à beira-mar,
drapejada de glicínias...
uma espera no riste do vento
que, só ele,
te perdoa as intempéries.
(foto do autor tirada com
telemóvel: farol em
S. Pedro de Moel, Portugal)
(texto publicado em primeiro
lugar no blogue
GPS em que participo)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

origem


Vigia as tuas mãos,
os teus olhos,
os teu pulsos;
não rasgues os teus dedos na caliça
que te esqueceu;
não ouças as visões - brindes do tempo;
não cabeceies sobre o teu peito:
já não há quem se incline sobre ti.

Regressa à tua terra,
agarra os torrões, as ervas,
abraça os teus trilhos e sorri ao vento,
as madrugadas pertencem-te,
e os poentes alargam-se
e pintam-te a alma de ouro.
















(fonte da imagem: net, origem desconhecida)

domingo, 12 de setembro de 2010

aro

Espojei-me, pois, na tua luz;
mirei o meu dedo firme,
apagador de todas as promessas;
pisquei-me,
quase rarefeito,
aguarela deslavada,
nas viagens circulares,
cavalgando as ondas
que o céu extinguiu.

Sou o que o mar te salgou,
a vida que te ensoberbece,
a coluna do teu fumo;
verga-te, pois,
contrito,
ao meu lume,
ao meu decreto!

(imagem do autor
obtida com telemóvel:
S. Pedo de Moel)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

roda


Guardo o dia em que meus braços se estenderam,
o pó da estrada, a névoa fulva, a luz,
rodearam-nos, calçaram-nos no seu verde pranto.
Fiquei assim, perdido no vazio, entre as paredes calvas
de masmorras nem sonhadas, de tão errantes.

Quem será aquele, ali na falésia, com os braços esquecidos?
Por que se estenderá de borco,
nariz afilado, como que ganhando asas?

Ah, homem...
não te faças sozinho à vida,
deixa que outros passos sigam os teus.

Homem...
se te acompanham,
acautela a tua sombra,
porque duas querem mais,
demais.

Conforma-te, pois:
a tua sombra, os teus passos, pertencem-te.
Deixa os teus braços sorrirem ao Sol,
que a Lua lhes beije as madrugadas,
que um entardecer dourado
lhes faça luzir as memórias felizes.
A parede escorrega pelo tempo,
a falésia esqueceu-te:
sobraste tu,
no teu sonho
entre gargalhadas de crianças.

(fonte da imagem: